CABELOS DE FOGO
Viviam
numa cidadezinha rural e acolhedora, uma família muito discreta, um homem
chamado Rui, sério, Promotor de Justiça, era bom para a família, porém de pouca
conversa. Já Amélia, esposa de Rui era uma doçura em pessoa, não questionava
ele em nada, vivia para os afazeres domésticos e para cuidar da filha Angélica.
A menina de sete anos era calada, pouco se alimentava, não tinha amigos e para
receber os ensinamentos possuía uma professora particular que ia à sua casa.
Os
três habitavam um chalé grande, de dois andares, sendo o quarto de Angélica no
segundo andar. Havia um jardim com muitas árvores, secas, não davam frutos e as
roseiras não floresciam. Ali imperava o silêncio. Fixaram residência ali por
conta do ar puro propício para a saúde frágil de Angélica, que possuía alergia
respiratória desde bebê. Por ser demasiadamente frágil, Angélica era muito
protegida pelos pais, que não deixavam-na nem sair ao pátio para brincar com as
crianças da vizinhança. Ela nem mesmo podia andar de bicicleta no quintal, somente
no quarto de brinquedos, ela podia fazer uso da mesma. O ambiente era coberto
por ursinhos de pelúcia, casinhas de boneca, bonecas de pano, mas ela tinha
preferência por um boneco em especial, talvez por ele ter os cabelos vermelho.
A
rotina da família era sempre a mesma- às 6:00 horas da manhã, Rui saía para ir
à Promotoria. Devido à sobrecarga de trabalho, chegava sempre exausto em casa.
Amélia ficava em casa, não possuía empregada, portanto era ela a responsável
pela limpeza e refeição. Rui era muito rígido com horários, chegava para
almoçar pontualmente às 12:00 horas e para o jantar às 19:00 horas. Ele não
abria mão dos horários. Era questão sagrada para ele.
Amélia
não tinha descanso, desde que amanhecia se ocupava da casa, não dispondo de
tempo para se dedicar à filha. Agradecia aos céus por ter Aurora como educadora
de Angélica, pois aquele momento de ensino era muito bom, porque assim Angélica
não ficava tão só, já que a mãe não podia dedicar mais tempo para a menina.
Angélica
era dedicada nos estudos, apesar de vez ou outra fugir do ar, ficar
pensativa... Sua família se preocupava por ela ser tão quieta. Já haviam-na
levado em mais de cinco médicos, mas nada era descoberto,
Rui,
desejoso de ficar mais próximo da família, decidiu passar a retornar mais cedo
para casa, para assim dedicar um tempo para a filha. As noites estavam mais
agradáveis, Rui estava menos sisudo e até tinha manifestações de carinho com a
esposa. Entretanto, apesar do bom ânimo dele em acompanhar a garota, as coisas
eram estranhas. Angélica, no momento das refeições não se concentrava, nada
verbalizava e, do nada, iniciava a jogar os objetos da mesa contra a parede e
pelo chão. Os pais ficavam preocupados com a educação da filha, refletiam sobre
de que forma aquilo havia sido aprendido por ela, sendo que eles não eram
violentos. Pensaram que poderia ser Aurora, a professora, que estivesse
ensinando esse mau comportamento. Chamaram-na ao escritório para um diálogo:
— Aurora, eu na
qualidade de pai de Angélica, tenho observado que ela vem demonstrando atitudes
que não combinam com uma menina de boa educação. Ela não tem contato com outras
crianças e nós só ensinamos coisas boas para ela. É você quem ensina certas
atitudes maldosas?
— Choro! Jamais, senhor Rui. Somente ensino as lições para ela e mais
nada.
O
mistério continuava a assombrar os pobres pais. Angélica, cada vez mais
malcriada, jogando facas pelo chão, quebrando objetos. E sempre em silêncio.
Quando não dormindo, estava no quarto brincando com seu boneco ruivo.
Uma
bela tarde cinzenta, Amélia passando pelo corredor em frente ao quarto da
filha, ouviu uma voz estranha.
— Quem será? Não havia entrado ninguém na casa.
Tentou
abrir o quarto, a porta estava trancada; chamou Angélica que abriu a porta. A
mãe verificou todo o recinto, mas não havia ninguém. Perguntou à filha com quem
ela estava conversando, entretanto a garota nada respondeu. Amélia saiu
cabisbaixa e pensativa.
Aproximava-se
do aniversário de Angélica e de presente, ela ganharia uma viagem para a Disney
com os pais. Ela não demonstrava muito, mas no fundo estava contente. Os pais,
inclusive estavam empenhados com os preparativos — passagens e compra de roupas
para o frio rigoroso.
Faltando
uma semana para o embarque, arrumaram as malas. Além das roupas, na mala de
Angélica também foram colocados alguns brinquedos para distrai-la. Chegado o dia da partida, Aurora estava na
casa, já que ficaria cuidando da mesma, enquanto os patrões ficariam fora.
Acomodaram as bagagens no veículo que os levaria até o aeroporto. Amélia
passava as recomendações para Aurora:
— Não se esqueça de
regar minhas plantas, por favor.
— Sim, senhora —
respondeu ela.
Já distantes umas duas
quadras de casa, Angélica lembrou-se de algo, começou a procurar nas malas, na
sua mochila e nada. Gritou:
— Papai, precisamos
voltar, me esqueci de algo muito importante para mim.
Logo Angélica, tão calada,
de repente se manifestara e muito nervosa...
O
pai fez uma manobra e deu o retorno, parando em frente à sua residência. A
filha desceu do carro e entrou, subiu as escadas, procurando por todos os
cantos do quarto, por dentro do roupeiro, no quarto de brinquedos, na casinha
de bonecas e nada...
Passado
cerca de duas horas, após muita insistência dos pais, Angélica atravessou a
porta com uma sacola, os mesmos deduziram que ela havia encontrado o que fora
procurar.
Novamente,
Rui deu a partida. Seguiam, contemplando as paisagens, Amélia ao seu lado e
Angélica sentada no banco traseiro com os seus brinquedos. A garota ia
adormecida boa parte do tempo. Pararam no caminho, Rui havia avistado um
restaurante e já se aproximava do horário do almoço. Enquanto faziam a
refeição, o carro ficou numa ruazinha na lateral.
A
família almoçava tranquilamente. Angélica, que nunca se alimentava até repetiu
um Frapê de frango. Amélia, para
comemorar o bom ânimo da filha, pediu um Petit
Gateau de sobremesa para os três. Após finalizarem, ficaram caminhando por
um jardim próximo, Angélica brincando com as rosas do local. Rui contemplava-a
em silêncio.
Prosseguiram
a viagem, Angélica dormia com a sacola pendurada em seu pulso. Rui ia
concentrado na direção, enquanto a esposa lia um livro. Ao cair da tarde, ainda
restavam alguns quilômetros para chegarem até o aeroporto. Nesse momento,
Angélica decidiu retirar o brinquedo da sacola — era seu boneco de cabelos cor
de fogo.
De
repente, Rui começou a ouvir o choro da filha, fez uma manobra com o carro,
jogando-o para fora da pista para atender a menina. O seu rosto estava
ensanguentado, com marcas de arranhões. Rui e a esposa, horrorizados com o
estado da filha, questionaram-na sobre o motivo dela ter feito aquilo com seu
lindo rostinho, mas a menina, chorando muito, falou baixinho no ouvido da mãe:
— Não fui eu, mamãe.
Amélia,
muito preocupada, perguntou ao marido se não seria o caso de retornarem para
casa e levarem a filha ao médico, pois acreditava veementemente que a garota
estava doente. Porém, Rui não acatou a sugestão da esposa e prosseguiu a
viagem.
Ao
anoitecer, seguiam na estrada de pedra, quando algo saltou no colo de Rui segurando
a direção, lançando o carro num barranco. O veículo, após capotar inúmeras
vezes, explodiu.
No
outro dia pela manhã, um viajante avistou o carro queimado, desceu para
averiguar se havia pessoas feridas. Quando o mesmo puxou os corpos para fora, percebeu
que estavam todos sem vida, com muitas queimaduras e o que mais o chocou é que
o boneco dos cabelos cor de fogo estava intacto. Chamou uma ambulância e seguiu
para a sua residência, levando o lindo boneco para a sua netinha, que,
certamente ficaria muito feliz.