quarta-feira, 3 de novembro de 2021


 

CABELOS DE FOGO

Viviam numa cidadezinha rural e acolhedora, uma família muito discreta, um homem chamado Rui, sério, Promotor de Justiça, era bom para a família, porém de pouca conversa. Já Amélia, esposa de Rui era uma doçura em pessoa, não questionava ele em nada, vivia para os afazeres domésticos e para cuidar da filha Angélica. A menina de sete anos era calada, pouco se alimentava, não tinha amigos e para receber os ensinamentos possuía uma professora particular que ia à sua casa.

Os três habitavam um chalé grande, de dois andares, sendo o quarto de Angélica no segundo andar. Havia um jardim com muitas árvores, secas, não davam frutos e as roseiras não floresciam. Ali imperava o silêncio. Fixaram residência ali por conta do ar puro propício para a saúde frágil de Angélica, que possuía alergia respiratória desde bebê. Por ser demasiadamente frágil, Angélica era muito protegida pelos pais, que não deixavam-na nem sair ao pátio para brincar com as crianças da vizinhança. Ela nem mesmo podia andar de bicicleta no quintal, somente no quarto de brinquedos, ela podia fazer uso da mesma. O ambiente era coberto por ursinhos de pelúcia, casinhas de boneca, bonecas de pano, mas ela tinha preferência por um boneco em especial, talvez por ele ter os cabelos vermelho.

A rotina da família era sempre a mesma- às 6:00 horas da manhã, Rui saía para ir à Promotoria. Devido à sobrecarga de trabalho, chegava sempre exausto em casa. Amélia ficava em casa, não possuía empregada, portanto era ela a responsável pela limpeza e refeição. Rui era muito rígido com horários, chegava para almoçar pontualmente às 12:00 horas e para o jantar às 19:00 horas. Ele não abria mão dos horários. Era questão sagrada para ele.

Amélia não tinha descanso, desde que amanhecia se ocupava da casa, não dispondo de tempo para se dedicar à filha. Agradecia aos céus por ter Aurora como educadora de Angélica, pois aquele momento de ensino era muito bom, porque assim Angélica não ficava tão só, já que a mãe não podia dedicar mais tempo para a menina.

Angélica era dedicada nos estudos, apesar de vez ou outra fugir do ar, ficar pensativa... Sua família se preocupava por ela ser tão quieta. Já haviam-na levado em mais de cinco médicos, mas nada era descoberto,

Rui, desejoso de ficar mais próximo da família, decidiu passar a retornar mais cedo para casa, para assim dedicar um tempo para a filha. As noites estavam mais agradáveis, Rui estava menos sisudo e até tinha manifestações de carinho com a esposa. Entretanto, apesar do bom ânimo dele em acompanhar a garota, as coisas eram estranhas. Angélica, no momento das refeições não se concentrava, nada verbalizava e, do nada, iniciava a jogar os objetos da mesa contra a parede e pelo chão. Os pais ficavam preocupados com a educação da filha, refletiam sobre de que forma aquilo havia sido aprendido por ela, sendo que eles não eram violentos. Pensaram que poderia ser Aurora, a professora, que estivesse ensinando esse mau comportamento. Chamaram-na ao escritório para um diálogo:

— Aurora, eu na qualidade de pai de Angélica, tenho observado que ela vem demonstrando atitudes que não combinam com uma menina de boa educação. Ela não tem contato com outras crianças e nós só ensinamos coisas boas para ela. É você quem ensina certas atitudes maldosas?

Choro! Jamais, senhor Rui. Somente ensino as lições para ela e mais nada.

O mistério continuava a assombrar os pobres pais. Angélica, cada vez mais malcriada, jogando facas pelo chão, quebrando objetos. E sempre em silêncio. Quando não dormindo, estava no quarto brincando com seu boneco ruivo.

Uma bela tarde cinzenta, Amélia passando pelo corredor em frente ao quarto da filha, ouviu uma voz estranha.

Quem será? Não havia entrado ninguém na casa.

Tentou abrir o quarto, a porta estava trancada; chamou Angélica que abriu a porta. A mãe verificou todo o recinto, mas não havia ninguém. Perguntou à filha com quem ela estava conversando, entretanto a garota nada respondeu. Amélia saiu cabisbaixa e pensativa.

Aproximava-se do aniversário de Angélica e de presente, ela ganharia uma viagem para a Disney com os pais. Ela não demonstrava muito, mas no fundo estava contente. Os pais, inclusive estavam empenhados com os preparativos — passagens e compra de roupas para o frio rigoroso.

Faltando uma semana para o embarque, arrumaram as malas. Além das roupas, na mala de Angélica também foram colocados alguns brinquedos para distrai-la.  Chegado o dia da partida, Aurora estava na casa, já que ficaria cuidando da mesma, enquanto os patrões ficariam fora. Acomodaram as bagagens no veículo que os levaria até o aeroporto. Amélia passava as recomendações para Aurora:

— Não se esqueça de regar minhas plantas, por favor.

— Sim, senhora — respondeu ela.

Já distantes umas duas quadras de casa, Angélica lembrou-se de algo, começou a procurar nas malas, na sua mochila e nada. Gritou:

— Papai, precisamos voltar, me esqueci de algo muito importante para mim.

Logo Angélica, tão calada, de repente se manifestara e muito nervosa...

O pai fez uma manobra e deu o retorno, parando em frente à sua residência. A filha desceu do carro e entrou, subiu as escadas, procurando por todos os cantos do quarto, por dentro do roupeiro, no quarto de brinquedos, na casinha de bonecas e nada...

Passado cerca de duas horas, após muita insistência dos pais, Angélica atravessou a porta com uma sacola, os mesmos deduziram que ela havia encontrado o que fora procurar.

Novamente, Rui deu a partida. Seguiam, contemplando as paisagens, Amélia ao seu lado e Angélica sentada no banco traseiro com os seus brinquedos. A garota ia adormecida boa parte do tempo. Pararam no caminho, Rui havia avistado um restaurante e já se aproximava do horário do almoço. Enquanto faziam a refeição, o carro ficou numa ruazinha na lateral.

A família almoçava tranquilamente. Angélica, que nunca se alimentava até repetiu um Frapê de frango. Amélia, para comemorar o bom ânimo da filha, pediu um Petit Gateau de sobremesa para os três. Após finalizarem, ficaram caminhando por um jardim próximo, Angélica brincando com as rosas do local. Rui contemplava-a em silêncio.

Prosseguiram a viagem, Angélica dormia com a sacola pendurada em seu pulso. Rui ia concentrado na direção, enquanto a esposa lia um livro. Ao cair da tarde, ainda restavam alguns quilômetros para chegarem até o aeroporto. Nesse momento, Angélica decidiu retirar o brinquedo da sacola — era seu boneco de cabelos cor de fogo.

De repente, Rui começou a ouvir o choro da filha, fez uma manobra com o carro, jogando-o para fora da pista para atender a menina. O seu rosto estava ensanguentado, com marcas de arranhões. Rui e a esposa, horrorizados com o estado da filha, questionaram-na sobre o motivo dela ter feito aquilo com seu lindo rostinho, mas a menina, chorando muito, falou baixinho no ouvido da mãe: — Não fui eu, mamãe.

Amélia, muito preocupada, perguntou ao marido se não seria o caso de retornarem para casa e levarem a filha ao médico, pois acreditava veementemente que a garota estava doente. Porém, Rui não acatou a sugestão da esposa e prosseguiu a viagem.

Ao anoitecer, seguiam na estrada de pedra, quando algo saltou no colo de Rui segurando a direção, lançando o carro num barranco. O veículo, após capotar inúmeras vezes, explodiu.

No outro dia pela manhã, um viajante avistou o carro queimado, desceu para averiguar se havia pessoas feridas. Quando o mesmo puxou os corpos para fora, percebeu que estavam todos sem vida, com muitas queimaduras e o que mais o chocou é que o boneco dos cabelos cor de fogo estava intacto. Chamou uma ambulância e seguiu para a sua residência, levando o lindo boneco para a sua netinha, que, certamente ficaria muito feliz.

 

 

 

 

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021



- “Só a Literatura Salva!”

Lembro como se fosse hoje quando, no primeiro semestre da faculdade, a professora proferiu essa sentença. Na época, eu não tinha a maturidade suficiente para compreender a proporção dessa afirmação. Entretanto, essa sementinha ficou germinando e essas palavras ficaram ecoando na mente, por vezes. Foi quando na disciplina de Literatura Contemporânea, ministrada, coincidentemente, pela mesma professora, que a “ficha caiu”, no momento em que lia um texto de apoio da filósofa contemporânea, Martha Nussbaum, em que a mesma afirma que a Arte tem o poder de criar em nós, seres humanos, a EMPATIA. E mais ainda, no caso da Literatura, visto que, ao lermos uma história, podemos nos colocar no lugar do outro, no lugar do personagem que sofre por discriminação; que sofre por Bullying; que sofre por “n” motivos. Nesse momento a frase verbalizada 4 anos, anteriormente, pela professora, fez todo o sentido e eu que até então contemplava somente a estética das histórias, passei a enxergar a sua grandeza de poder de transformação. A Literatura salva! A empatia exercitada por meio das histórias pode, sim, salvar o mundo, começando pelo nosso mundo interior. Por isso, não me vejo noutro espaço que não na Literatura, seja escrevendo minhas próprias histórias, como também lendo os livros redigidos por colegas também escritores. Eu não me canso de exaltar a Literatura Nacional e erguer a bandeira “A Literatura Salva”, porque ela, como toda expressão artística, tem o potencial de salvar o mundo, a começar pelo nosso próprio. A Literatura já me salvou e o faz todos os dias.

Texto Autoral



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